quarta-feira, março 21, 2007

A obra de arte

Deixar de criar é assassinar o amor, já que amar é uma invenção constante do prazer a dois.
Não interferir, modificar ou agredir o meio é perecer em inércia, pois o fito da vida do homem não pode deixar de ser o conhecimento e transformação do seu universo.
Ter medo da agressão é ter medo do amor; são parceiros inseparáveis. Obstáculos à expansão do espírito humano existirão sempre, e não se derrubam barreiras contemplando-as em êxtase. Amar é frémito e movimento, não se faz amor em relaxação, o relaxamento decorre do amor já feito.

Coimbra de Matos

quinta-feira, março 01, 2007

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido."

Haruki Murakami in Kafka à beira-mar

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

"O que o eu tem de único encontra-se precisamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só consegue imaginar-se o que é idêntico em todos, o que é comum a todos. O «eu» individual é aquilo que se distingue do geral, e é, portanto, aquilo que não pode ser adivinhado nem calculado antecipadamente, aquilo que primeiro é preciso desvendar, descobrir, conquistar no outro."

Milan Kundera
in A Insustentável Leveza do Ser

terça-feira, janeiro 16, 2007

"Todo o vosso corpo, desde a ponta de uma asa até à ponta de outra asa não é mais do que o vosso próprio pensamento, uma forma que podem ver. Quebrem as correntes do pensamento e conseguirão quebrar as correntes do corpo."
Richard Bach

Aos livros, aos segredos do coração, às viagens...
(Tudo mesclado n'A Sombra do Vento)

sexta-feira, dezembro 29, 2006

"O sentimento, por definição, surge em nós sem que disso nos apercebamos e muitas vezes contra nossa vontade. A partir do momento em que queremos experimentá-lo (a partir do momento em que decidimos experimentá-lo, como Dom Quixote decidiu amar Dulcineia), o sentimento já não é sentimento, mas imitação de sentimento, a sua exibição. É o que correntemente se chama histeria. É por isso que o homo sentimentalis (ou por outras palavras, o homem que erigiu o sentimento em valor) é na realidade idêntico ao homo hystericus.
O que não quer dizer que o homem que imita um sentimento o não experimente. O actor que desempenha o papel do velho rei Lear sente no palco, frente aos espectadores, a autêntica tristeza de um homem abandonado e traído, mas esta tristeza evapora-se no preciso instante em que a peça termina. É por isso que o homo sentimentalis, logo a seguir a ter-nos assombrado com os seus grandes sentimentos, nos desconcerta com a sua inexplicável indiferença."

Milan Kundera
in A Imortalidade

terça-feira, novembro 28, 2006

Talvez as palavras, corrompidas pelo vazio, ganhem alguma leveza numa nova lacuna do tempo.
Até lá, talvez não entenda plenamente o antagonismo peso-leveza, apenas tendo como certo que todos os momentos são feitos de acasos.


... para quem queira desvendar o antagonismo e compreenda então a insustentável leveza do ser.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Pronuncie o senhor mesmo as palavras que, há anos, não cessam de retinir nas minhas noites, e que eu direi enfim pela sua boca: «Ó pequena, deita-te de novo à água para que eu tenha pela segunda vez a sorte de nos salvar a ambos!» Pela segunda vez, hein?, que imprudência! Suponha, caro colega, que nos tomam à letra. Teríamos de cumprir. Brr...! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde de mais, agora, será sempre tarde de mais. Felizmente!

in A Queda
Albert Camus


A forma mais sublime de terminar o livro.
Cada um que tire as suas próprias ilações...

Hoje em dia o olho de Deus fora substituído pela máquina fotográfica. O olho de um só fora substituído pelos olhos de todos. A vida transformara-se numa única e vasta orgia colectiva em que toda a gente participava. Toda a gente pode ver numa praia tropical a princesa de Inglaterra a festejar nua o seu aniversário. Aparentemente, a máquica fotográfica só se interessa pelas pessoas célebres, mas basta que um avião se despenhe junto a nós, que nos irrompam chamas da camisa, para que nos tornemos célebres e sejamos incluídos na orgia geral que nada tem a ver com o prazer, mas anuncia solenemente que já ninguém pode esconder-se em parte nenhuma e que cada um está à mercê de todos os outros.

in A Imortalidade
Milan Kundera