terça-feira, junho 28, 2005

Imóvel

Parou só para ver como era, por que era. Se era real, se era produto de uma fantasia qualquer, de uma imagem imposta, idealizada, errónea e adulterada pela força da vontade. Parou e colocou em perspectiva todos os caminhos possíveis, todas as questões que surgiam, incessáveis, ásperas e implacáveis. Não obteve resposta. Continuou em busca de um sinal, de um indício, que pudesse trazer à luz algo palpável, a confirmação há tanto almejada, a recusa de pensamentos que tencionava suprimir da sua mente. Mas o vazio cresceu, manteve-se, prolongou-se e tomou posse. As questões ininterruptas permaneceram, ficando apenas uma mescla de nojo, vergonha, como um ser diminuído, disforme, sem interesse. Esperando, imóvel, uma palavra, umas meras palavras, que pudessem serenar a mente inquieta e o corpo cansado.

domingo, junho 05, 2005

Todo o tempo do mundo

Podes vir a qualquer hora
Cá estarei para te ouvir
O que tenho para fazer
Posso fazer a seguir

Podes vir quando quiseres
Já fui onde tinha de ir
Resolvi os compromissos
agora só te quero ouvir

Podes-me interromper
e contar a tua história
Do dia que aconteceu
A tua pequena glória
O teu pequeno troféu

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
o mundo à volta ruía

E tu vinhas e falavas
falavas e eu não ouvia
E depois já nem falavas
E eu já mal te conhecia

Agora em tudo o que faço
O tempo é tão relativo
Podes vir por um abraço
Podes vir sem ter motivo
Tens em mim o teu espaço

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

Para ouvir, para entender o que se passa aí dentro, apesar de, por vezes, deixar transparecer sentimentos e quereres ser tarefa delicada. Tentar apontar possíveis direcções, aquelas que provavelmente tomaria, ou que desejaria tomar mas que ficam a meio do caminho. Suas vantagens e desvantagens.
Partilhar lágrimas, dar a mão, abraçar e ficar assim, só assim.
Estou aqui, sempre estive, nunca noutro sítio qualquer. Partilho o que de melhor tenho, nem poderia ser de outro modo. Cancelo tudo e perco-me nas horas.
Vou ao encontro de um rol de desabafos, regados com lágrimas ou com olhares perdidos no vazio. Manter a mente limpa e não perder a clareza do discurso.
Falo quando me deparo com o silêncio, carregado de expectativas, perante a vontade inequívoca em ouvir palavras que alimentem o desejo, a esperança.
Mas revela-se aquilo que se pensa, escolhendo cuidadosamente as palavras.
Este é o meu modo de mostrar o meu afecto, a minha compreensão, carinho e atenção. Gosto, e ainda bem que gosto, tenho uma vida muito mais cheia por gostar.
Mas todos temos o nosso umbigo, uns têm-no maior que outros. Mas é extremamente gratificante quando olhamos um pouco para o que se passa à nossa volta, quando nos descentramos e quando temos o prazer em ajudar alguém a sorrir.

Continuo assim, sim. Há certas coisas que não mudam, e as fundamentais ficaram gravadas. Quem me conhece bem sabe do que falo.
E tenho todo o tempo do mundo... para os vários "tis" que fazem parte da minha vida.

sexta-feira, junho 03, 2005

Estratégias de grupo ou individuais?

As estratégias de grupo possibilitam redefinir o parentesco, bem como permitem que sejam transmitidas aos membros de determinada cultura uma grande quantidade de instrucções de comportamento que, em princípio, se encontram adequadas ao ambiente em que esse grupo vive. Mesmo que tenham o aspecto de instrucções religiosas ou rituais, as instrucções têm, frequentemente, um claro valor de sobrevivência.
Na maior parte dos casos, as imposições sociais são mais ou menos bem aceites: os processos de enculturação que ocorrem durante o desenvolvimento garantem que o indivíduo humano é aculturado com relativa facilidade de forma a apropriar-se das instrucções que a cultura lhe propõe. Tem particular relevância neste processo a nossa tendência para o conformismo social. Ou seja, parece haver uma predisposição biológica para nos comportarmos como os outros e, no processo, para justificar, a posteriori, os nossos actos com as explicações que a cultura fornece.
Esta tendência para a reprogramação cultural é um universal da nossa espécie e faz, sem dúvida, parte do nosso programa genético. Assim, os mecanismos genéticos terão seleccionado os indivíduos que eram reprogramáveis pela cultura, que lhes fornece classes de significado, explicações para os comportamentos e, mais ainda, instrucções de comportamento.
No entanto, e embora tenhamos vantagens em ser reprogramados culturalmente no sentido da cooperação, temos, ao mesmo tempo, vantagens para perseguir estratégias individuais, se conseguirmos não ser punidos pelas normas sociais. São instrucções que nos fazem seguir os comportamentos dos outros mamíferos e que fazem sentir a sua força em termos já não éticos mas motivacionais e de desejo.
Deste modo, o Homem ir-se-á deparar com a constante dualidade entre aceitar as pressões selectivas para ser cooperativo e ser egoísta. Temos essa opção, e de facto, o modo como gerimos o conflito, condiciona de forma brutal a nossa vida. Atitudes geram atitudes.