quinta-feira, setembro 22, 2005

Insolúvel

Voz. Que sussurra melodias breves, que encanta com devaneios ou com uma razão implacável. Olhos. Que penetram uns outros e tocam a essência única, que se perdem em curvas e na profundidade de um olhar, que revelam sonhos, gritam sinceridade, ocultam a alma esbatida. Cheiro. Que grava a pele, fundindo-se nela, acabando por envolver, de forma cabalmente inebriante, dois corpos. Corpo. Que embala outro, que desenha com os dedos as linhas do corpo, almejando alcançar para si todas as sensações oriundas do toque.
É esta a plenitude ansiada? É este o estado de fusão sublime que era pretenso aspirar? Talvez ilusão, talvez... O que está presente, o que é evidente, claro, irrefutável, e o que se sente, não se dissolve em palavras, em subterfúgios confortáveis... Torna-se insolúvel... como um abraço há muito desejado, e um beijo sincero e puro.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

Fiama Hasse Pais Brandão